Ilha da Trindade e Martim Vaz

Expedição do Veleiro Anakena em 2012.

 

Diante da necessidade de empreender testes de navegação oceânica com o veleiro Anakena, surgiu a idéia de fazermos uma expedição até as ilhas da Trindade e Matim Vaz.

Trindade e Martim Vaz formam um arquipélago Brasileiro no Oceano Atlântico, separadas cerca de 48 Km uma da outra, e somam uma área total de 10,4 Km². Somente a Ilha da Trindade é habitada e mesmo assim por uma pequena guarnição da Marinha do Brasil, com cerca de 30 militares. Lá funciona o Posto Oceanográfico da Ilha da Trindade – POIT.

Foi no reinado de D. Manuel I de Portugal, que a ilha de Martim Vaz foi descoberta. Isso ocorreu no ano de 1501 pelo navegador galego João da Nova.  Um ano depois, o navegador português Estêvão da Gama visitou a ilha vizinha e chamou-a Ilha da Trindade.

As ilhas permaneceram na posse de Portugal até a independência do Brasil, época em que passaram a ser brasileiras. Em 1890, o Reino Unido ocupou Trindade, mas os ingleses abandonaram as ilhas em 1896, depois de um acordo entre os dois países, que contou com mediação portuguesa.

Nos livros de História do Brasil sempre são notoriadas as invasões Holandesas e Francesas. Porém, tais livros silenciam com relação a ocorrência de invasão Inglesa em nosso território.

Para afirmar, de uma vez por todas, a soberania brasileira sobre a ilha, foi erigido um marco na data de 24 de janeiro de 1897.

As ilhas tiveram vários visitantes ilustres, dentre eles podemos destacar o astrônomo inglês Edmund Halley, que chegou a tomar posse da ilha em nome da monarquia britânica (1700).

Voltando a falar das ilhas, um dos problemas que ouvimos falar é que naquelas paragens o fundeio era arriscado, além de ser a ilha de visitação proibida. Somente a Marinha do Brasil pode autorizar o desembarque em Trindade. Mesmo que essa autorização nos fosse dada, antecipadamente, não haveria a certeza de desembarcarmos lá, pois o mar pode ser bastante agitado e o veleiro poderia garrar (arrastar a âncora), ou seja, seria necessário sempre manter alguém a bordo pronto para uma eventual emergência.

Inicialmente, marcamos uma visita ao Capitão dos Portos de Maceió, Capitão de Fragata Meire, o qual se prontificou em tentar conseguir a autorização que tanto almejávamos para podermos ir até as ilhas da Trindade e Martin Vaz.

Depois de pouco mais de um mês, o Capitão Meire nos ligou informando que a autorização havia sido concedida e que poderíamos iniciar os preparativos para a nossa expedição.

A autorização nos foi entregue no final de novembro na comemoração de final de ano da Federação Alagoana de Vela e Motor.

Já fazia alguns meses que vinha pesquisando sobre a Ilha da Trindade e Martim Vaz na internet.

Chamou nossa atenção um vídeo postado por Lucas Cembranelli, que fora a Ilha da Trindade em dezembro de 2011. Veja o vídeo abaixo:

Outro vídeo que nos chamou atenção também fora postado no Youtube. Era um vídeo do 1º Aniversário da Estação Científica da Ilha da Trindade - ECIT. O vídeo foi postado no dia 19/12/2011. Quase todas as pessoas que aparecem nesse vídeo nós iríamos conhecer na Ilha da Trindade. Veja o vídeo:

No início de janeiro colocamos o Anakena em seco para as averiguações finais e para abastecê-lo com água, diesel e gêneros alimentícios. Descemos o Anakena no dia 19/01/2012, um dia antes da nossa partida.

No dia 20/01/2012 zarpamos com destino a Ilha da Trindade e Martin Vaz por volta das 10h15min. Ao sairmos do ancoradouro fomos lentamente navegando no motor para transpor as imediações do porto e alcançarmos mar aberto. Levantamos a vela mestra e colocamos o nosso rumo na derrota para a Ilha da Trindade. Conforme previsões meteorológicas anteriormente pesquisadas, o vento estava vindo exatamente para onde queríamos ir, ou seja, vento na cara, sudeste.

Andamos com motor ligado por cerca de 4 horas para distanciarmos da costa. Em seguida, abrirmos as velas e começamos a velejar lentamente, no limite da orça, numa derrota que não nos levaria para a Ilha da Trindade, mas nos levaria para o sul, abrindo, dia a após dia, uma distância maior em relação a costa. Foi assim que conseguimos passar a cerca de 200 milhas náuticas do través de Salvador.

No dia 23/01/2012, por volta das 10h 00min, medi a distância entre a nossa posição e a costa e obtive uma distância de 260 milhas náuticas (través de Belmonte). No plotter marcava uma distância faltante de 420 milhas náuticas da nossa posição até a Ilha da Trindade. Nossa posição era: S 15º 23’.02 e W 34º 21’.12.

No dia 24/01/2012 enfrentamos ventos fortes, na casa dos 32 nós, nesse momento estávamos com a vela grande no primeiro rizo e a buja como vela de proa. Continuávamos em orça forçada. A distância para a ilha, por volta das 10h 30min, era de 310 milhas náuticas. Estávamos no través de Cabrália, distante cerca de 320 milhas náuticas. Nossa posição era:  S 17º 06’.34 e 32º 26’.25.

No dia 25/01/2012 (quarta-feira), por volta das 10h15min, estávamos a 199,8 Milhas náuticas da Ilha da Trindade, com ventos na casa dos 20 nós, sempre no limite da orça. Nossa posição era S 18º 38’.16 e W 32º 14’.55.

No dia 26/01/2012 (quinta-feira), às 12h00min, estávamos na posição S 20º 01’.39 e W30º 45’.45, a uma distância da Ilha da Trindade de 86,6 milhas náuticas. O vento diminui e estava abaixo dos 20 nós.

No dia 27/01/2012 às 04h15min, logo após assumir seu turno, o comandante, Eugênio avistou a Ilha da Trindade. A nossa posição nesse momento era S 20º 14’.49 e W 29º 44’.12 e estávamos a cerca de 28 milhas náuticas da ilha. A partir desse momento até o fundeio do Anakena ainda se passariam 7 horas. Começamos a tentar contato via rádio VHF com a Marinha do Brasil, porém, o sinal recebido era incompreensivo. Só quando estávamos a cerca de 20 milhas é que começamos a nos comunicar melhor com o POIT e passamos a informar a posição do veleiro e a estimativa de chegada na área de ancoradouro.

A viagem foi tranquila apesar dos ventos predominantes contrários e do mau tempo (pirajás). Diante das dificuldades que encontramos na travessia levamos sete dias e uma hora para transpor as 750 milhas náuticas que separam Maceió da Ilha da Trindade.  A chegada na Ilha da Trindade ocorrera no dia 27/01/2012 (sexta-feira), as 11h 15min (horário de Maceió).

Assim que fundeamos o inflável da Marinha já estava ao lado do Anakena para fazer o nosso desembarque. Em terra, toda a tripulação do POIT (Posto Oceanográfico da Ilha da Trindade), cerca de 30 militares, além de 13 pesquisadores da ECIT – Estação Cientifica da Ilha da Trindade, nos aguardavam para almoçar. O almoço foi abundante em peixes (peixada e peixe assado).

Aproveitamos a oportunidade para homenagear e agradecer a todos os que fazem parte do POIT pela nossa recepção. Entregamos uma placa alusiva a nossa expedição ao Comandante do POIT, além de vários livros de autoria do tripulante Cláudio Vieira, os quais foram autografados e deixados para compor acervo da biblioteca da Ilha da Trindade.

No final da tarde embarcamos no Anakena para descansar e dormir.

No dia seguinte, dia 28/01/2012 (sábado), ficamos a bordo para arrumar o veleiro, consertar pequenas avarias, como por exemplo uma das redes de proa do catamarã etc.

No domingo, dia 29/01/2012, desembarcamos logo cedo. Fizemos uma trilha até uma ponta da Ilha onde ocorrem as famosas ondas camelos, retornando com uma visita na Gruta de Santa Lourdes. As 13h30min estávamos de volta ao POIT onde almoçamos na casa do comando, juntamente com o 1º imediato e o médico da ilha. Após o almoço vimos alguns vídeos sobre a ilha e finalizamos o dia com um churrasco que fizemos para os nossos novos amigos, cuja carne e linguiça levamos congelada desde Maceió.

Embarcamos as 18h00min levando uma primeira aguada para o Anakena (cerca de 200 litros de água potável), além de 8 caranguejos que foram prontamente para a panela. A noite no Anakena foi uma festa só, apesar de estarmos apenas em quatro, comendo os caranguejos e tomando muita cerveja, wisk etc.

No dia 30/01/2012 suspendemos o ferro e fomos com o Anakena até a Baía do Príncipe, do outro lado da ilha. Lá o mar estava mais tranqüilo e poderíamos subir no mastro para consertar a adriça da vela mestra. A tarde voltamos para a área de fundeio e não desembarcamos.

No dia 31/01/2012 (terça-feira) desembarcamos logo cedo e fomos direto ver como funciona a estação meteorológica da Ilha da Trindade, uma das mais importantes do Brasil pela sua posição a cerca de 600 milhas da costa brasileira. Acompanhamos o lançamento do balão meteorológico e a captação das informações durante a sua subida.

Fomos novamente convidados para almoçar com o comandante do POIT. Durante o almoço o comandante homenageou o Anakena e sua tripulação com presentes feitos da madeira columbrina, que era uma árvore abundante na ilha e que agora não existe mais. Pedaços dessa madeira são escassos e geralmente encontrados no alto dos picos da ilha.

Após o almoço embarcamos e preparamos nosso veleiro para a travessia de retorno. Zarpamos com destino a Maceió as 15h00min.

O nosso retorno foi com vento favorável, geralmente abaixo dos 20 nós. A nossa chegada se deu às 9h30min do dia 06/02/2012. Velejamos durante toda a travessia de retorno com a mestra no segundo rizo e com a buja como vela de proa. Não podíamos utilizar a genoa pois a fixação do gurupés estava soltando do casco e não havia como consertá-la na Ilha da Trindade. A vela grande estava no rizo porque ao a utilizarmos toda levantada estava poindo o cabo da adriça e tínhamos medo que o cabo não aguentasse. O motivo do cabo poir só descobrimos em Maceió. A última seção do trilho do carrinho da vela grande estava mal fixado e soltando do mastro, bastou isso para que houvesse um ponto de fricção entre o cabo e o trilho.

Quando desembarcamos em Maceió, após dias maravilhosos na Ilha da Trindade, a mais remota ilha Brasileira do Atlântico Sul, pois é lá que o “Brasil começa”, estávamos com o imenso prazer de serviço cumprido.

Em terra soubemos que praticamente toda a Federação Alagoana de Vela e Motor estava nos acompanhando, pois Mário Engles enviava e-mails diários com nossa posição, obtida pela página do nosso Spot, além de dados sobre a nossa travessia.

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