Ascension Island

A Ilha de Ascension

Ascension Island está localizada nas coordenadas geográficas 7º 56’S, 14º 22’W, ligeiramente ao norte do través do Recife (ou seja, quase em linha paralela a cidade do Recife; mais precisamente no paralelo da Ponta do Funil no Município de Goiana).

De Maceió para Ascension teremos aproar no rumo magnético 110º e percorrer uma distância de 1270 milhas náuticas em linha reta (o que nem sempre é possível), ou seja, cerca de 2.352 Km a percorrer.

A ilha pertence ao Reino Unido e constitui parte do Território Ultramarino Britânico de Santa Helena, que fica a cerca de 1300 Km a sudeste de Ascension.

A oeste, a porção de terra mais próxima no continente sul-americano, como já falamos acima, é a Ponta do Funil, localizada no município brasileiro de Goiana, no estado de Pernambuco.

A distância entre Ascension e a Ponta do Funil é de 2.249 km.

Levando-se em consideração as ilhas oceânicas do Brasil, as distâncias são de 1.923,9 km até o Arquipélago de São Pedro e São Paulo; de 2.039,7 km até a Ilha Rata, em Fernando de Noronha; e de 2.079,9 km até a Ilha Martim Vaz, no Arquipélago de Trindade e Martim Vaz.

Em Ascension funcionam duas bases aéreas, sendo uma da RAF (Real Força Aérea do Reino Unido) e outra da Força Aérea Americana, utilizando a mesma pista de pouso. Existe, ainda, uma pequena cidade chamada Georgetown. Ao todo cerca de 1200 pessoas, entre civis e militares, moram nessa ilha que tem uma área de 91 Km², área bem superior a Fernando de Noronha que conta com 17 Km² (Ilha Principal).

A idéia já estava plantada. Primeira coisa a ser feita foi ir para a internet e pesquisar onde comprar a carta náutica da Ilha de Ascension, o que fiz imediatamente. Localizei uma loja virtual chamada SailGB que vendia cartas náuticas do Reino Unido e do mundo afora. Não foi difícil encontrar a que eu queria a Carta de proximidade da Ilha de Ascension (Admiralty Chart West África and Cabo Verde Island G 65 - Ascension Island nº 1691), ao custo de US$ 34,37 + taxa de envio. Adquiri essa carta no final de abril de 2010.

Comecei a pensar na viagem, a fazer cálculos de consumo de diesel e água, pois queria ir com uma tripulação de até 5 pessoas. Não demorou muito e já estava ligando para o estaleiro para ver a possibilidade de aumentar os tanques de água de 400 para 600 litros e o de diesel de 300 para 400 litros, o que, infelizmente, não fora possível.

A idéia havia nascido e estava efervescendo.

O problema é que para empreendermos tal navegação teríamos que sair de Maceió no mês de julho, mês em que temos ocorrência de frentes frias que sobem a costa Brasileira e que poderiam nos impulsionar rumo ao leste, ou seja, rumo a Ascension. Porém, pegar um mar nessas condições tornaria a viagem um pouco atribulada, mas era o mês mais propício para empreender tal jornada.

Os preparativos para a Expedição a Ilha de Ascension.

No inicio de 2013 pensei mais uma vez em colocar em prática uma antiga idéia, ir com meu novo veleiro até a Ilha de Ascension.

Resolvi subir meu veleiro no final de abril para iniciar uma extensa e minuciosa manutenção.

Fiz uma lista com mais de oitenta itens para serem vistoriados e/ou consertados, dentre esses itens estava a troca das chapas que havia colocado como um extensor nos cabos da genoa e buja (essas chapas foram instaladas em janeiro de 2012 e eram finas, foram usadas época para a travessia Maceió - Ilha da Trindade). Essas chapas foram colocadas para podermos dar uma pequena inclinação do mastro para trás, melhorando, dessa forma, o ângulo de orça do nosso veleiro.

Fora a troca dessas chapas estavam na nossa lista a troca dos cabos de aço do gurupés; a verificação da vedação de gaiutas e vigias; a troca das saídas e entradas de água de plástico por outras feitas em inox; a substituição das redes do trampolim de bombordo e boreste, as quais haviam descosturado e não mais eram seguras; o conserto da geladeira que não estava funcionando; a troca de cabos diversos; a manutenção preventiva do motor com troca de óleo, filtros, rotor de bomba de água etc; retirada e limpeza dos tanques de diesel e de água potável; a substituição de cabos do turco; melhorar a vedação das tampas dos motores e porões de proa etc. Enfim, deveríamos fazer um verdadeiro pente fino em todo o veleiro para que nada fosse esquecido ou deixado de ser verificado.

O problema da rede do trampolim foi resolvido com a colocação de cabos de 10 mm trançados em toda a extensão da rede, amarrados de forma individual (15 x 17 cabos). Acima dessa nova e forte rede tive a idéia de colocar um estrado plástico composto por 54 peças de 25cm x 25 cm, fazendo um retângulo de 1,5 metros por 2,25 metros. Essas peças, apesar de serem encaixadas, foram individualmente amarradas para que a força da água não as soltassem.  Esse estrado serviria como piso do novo trampolim. Como a experiência foi bem sucedida em um dos lados (boreste), fiz o mesmo procedimento no de bombordo. Agora estamos com um novo tipo de rede de trampolim, nunca antes visto em nenhum outro catamarã, muito forte e seguro. Poderíamos fazer qualquer serviço na proa do Anakena sem qualquer preocupação, até mesmo puxar âncoras ou fazer o que fosse necessário, pois a nova rede era praticamente indestrutível.

No começo de maio verifiquei no site do Governo da Ilha de Ascension que seria necessário enviar um pedido de entrada de turista com antecedência mínima de 28 dias.

Diante disso, entrei em contato com todos os tripulantes e candidatos a tripulantes para que preenchessem e me entregasse o referido documento, juntamente com uma cópia da página do passaporte que contém a foto e as informações respectivas.

No dia 10/05/2013 enviei os pedidos de entrada para o Governo da Ilha de Ascension.

Por ora, continuamos com os preparativos da viagem com uma rotina quase diária para averiguarmos todos os equipamentos, toda hidráulica, toda elétrica etc.

A partida da nossa expedição está programada para a tarde do dia 05/07/2013 (sexta-feira). Nossa previsão de tempo de travessia é de 8 a 10 dias, velejando 24 horas/dia, podendo demorar além do previsto por conta de fatores climáticos (vento não tão favorável) e corrente marítima contrária.

No dia 17/05/2013, uma semana após o envio dos pedidos de entrada (Entry Permits), recebi um e-mail de Marion Leo, Assistente do Administrador da Ilha, responsável pelo controle de entrada de pessoas na Ilha de Ascension, no qual informa que os nossos pedidos foram aprovados, veja abaixo a cópia do e-mail:

“GoodAfternoon,

Please find attached your approved entry permits.

Please be advised that you can make payment for your permits on arrival or in advance.  The cost of your permits are £20 each.

Payments can be made in advance via our Lloyds Bank UK, to Ascension Island Government, Sort Code 30-00-09, Account number 02293999; or through the Bank of St. Helena Ascension  Branch, to Ascension Island Government, Account number 62000012.

When making payment in advance please could you state the entry permit reference numbers.

If payment is not made in advance the Entry Permit fee will be collected on arrival.  Please Note:  Only the following currency will be accepted on arrival.  Sterling pounds; St Helena pounds; Euros' and US dollars.

Should you make payment less than a week prior to your arrival date, please ensure you bring a copy of your proof of payment with you.

I also attach the arrival card which can be completed prior to arrival and handed to immigration along with your other documents.

Kind regards

Marion”

 Nos dias 17 a 20/05/2013, ficamos quebrando a cabeça para regular o nosso mastro. O problema é que o brandal de boreste estava com cabo muito grande e não conseguíamos esticá-lo o suficiente. Resolvemos retirá-lo e cortar um pedaço do cabo. Aparentemente, cortamos mais do que o necessário e agora a regulagem estava mais uma vez comprometida. Só que agora o problema era o contrário, cabo de aço inox curto.

Nesse momento a lista de pendências/verificações que tinha começado com menos de cinqüenta itens, já contava com 38 itens verificados/consertados e 35 pendências a serem concluídas. A cada dia um problema novo aparecia. O último foi a luminária do camarote de bombordo (popa), que havia quebrado no último carnaval e eu havia esquecido de incluí-la em minha lista de pendências.

Apesar do nosso veleiro ser relativamente novo, mal acabara de fazer dois anos que saiu do estaleiro, ele está naquela fase que eu chamo de “sintonia fina”. Ao contrário da maioria dos carros, falo dos carros que não costumam quebrar, carros de primeira linha, as embarcações passam por um período de adaptações, onde seu dono vai, paulatinamente, mexendo ali, mudando aqui, até que sinta que sua embarcação está próxima da perfeição, se é que isso é possível. Na verdade, sempre acharemos alguma coisa para fazer ou melhorar, basta procurar e nos encontramos.

O meio marítimo é muito agressivo, principalmente para a parte elétrica da embarcação. A manutenção preventiva e constante é a solução adequada para que não passemos apertos nas horas em que a tripulação é mais exigida (tormentas, tempestades, mau tempo etc).

Para resolver o problema do brandal que ficou curto mandamos cortar duas chapas de inox de 15cm por 5cm, com furos espaçados cerca de 9 cm. Outro problema foi a necessidade de mais um pino e contrapino para a chapa. Não encontramos uma tarugo de inox com o tamanho apropriado para fazer o pino que deveria ter a espessura de 14 mm, ou seja, o tarugo deveria ter pelo menos 16 mm. Como não achamos o tarugo nessas dimensões eu comprei dois parafusos inox com 16 mm. Mandamos para um torneiro para retirar a rosca e preparar o pino. O problema estava resolvido.

A regulagem do mastro ficou adiada alguns dias por conta do problema do brandal. No dia 29/05/2013 começamos a regulagem do mastro. Tínhamos pouco mais de um mês para resolver o restante dos problemas e finalizar as averiguações.

A esta altura já havíamos contratado o seguro viagem exigido pelo Governo da Ilha de Ascension, tendo sido escolhido um plano da WorldNormads Travel Insurance e outro plano da Atlas Travel, este último foi contratado por Franklin que não conseguiu contratar o WorldNomads por conta da sua idade, pois no dia 14/06/2013 ele completaria 68 anos e não era admissível em tal plano, que tinha idade limite de 67 anos. O plano da Atlas Travel era bem parecido, cobria as exigências da Ilha de Ascension e custou um pouco a mais. Enquanto o plano na WorldNomads ficou em US$ 84,00 por pessoa, o na Atlas Travel custou US$ 132,00.

Na mesma época Otávio, presidente da Federação Alagoana de Vela e Motor – FAVM, nos procurou e sugeriu que fosse feita divulgação de nossa expedição. Ficou acertado que no dia 28/06/2013, exatamente uma semana antes da nossa partida, no dia em que ocorreria a festa de São João da FAVM, seria feita a divulgação de nossa expedição, inclusive para a imprensa local.

Ainda no final de maio de 2013 enviei e-mails para o Harbour Master da Ilha de Ascencion e para a Ouvidoria da Capitania dos Portos de Alagoas - CPAL, solicitando informações acerca da documentação necessária para a saída de nosso veleiro.

Na sexta-feira, dia 31/05/2013, fui contatado pela CPAL a qual prestou as devidas informações, solicitando que eu comparecesse a Capitania com toda a documentação necessária para as providências de saída (“despacho” da embarcação), o que poderia e deveria ser feito com antecedência. Esse registro é necessário para que as autoridades marítimas tomem conhecimento das nossas intenções de navegação, previsão de dias de travessia etc, tudo com vistas a salvaguarda da vida humana no mar.

Com a finalidade de adiantar os trâmites na CPAL, no dia 04/06/2013 fui à Capitania para dar entrada na documentação. Fui muito bem recebido pelo Suboficial Edmilson que me ajudou com a papelada. Levei cópia de todos os documentos do veleiro (título de inscrição, termo de responsabilidade, licença de estação de navio da Anatel, seguro obrigatório), além de cópia da minha habilitação de Capitão Amador e das permissões de entrada emitidas pelo Governo da Ilha de Ascension. Ao final o Suboficial me informou que manteria contato e que o nosso “passe de saída” seria entregue alguns dias antes da viagem, já que ainda estávamos a um mês da data prevista para partida.

Outro requisito legal que deveríamos cumprir diz respeito a Polícia Federal. Seria necessário que todos os tripulantes fossem até a delegacia com seus respectivos passaportes para oficializar nossa saída do Brasil (inclusão de dados no sistema da PF), o que deveria ocorrer na semana de nossa saída, ou seja, na primeira semana de julho de 2013.

Em meados de junho de 2013 (14 a 16/06/2013), viajei para São Luis do Maranhão, aproveitando uma promoção de milhagem para rever os amigos e pegar um suporte de motor de popa que havia encomendado ao Sérgio, dono do Estaleiro Bate Vento.

Lá conversamos muito sobre mastreação e regulagem de mastro. Foi a partir desta conversa que resolvi levar até Maceió o Joacy Sousa, funcionário do estaleiro e que era especialista em regulagem de mastros. O mastro do Anakena estava em falso. A base do mastro não estava totalmente apoiada na enora. Isso ocorreu por conta de uma regulagem que fiz, quando resolvi que o mastro precisava de um leve caimento para ré, propiciando uma melhor desenvoltura do veleiro quando em orça. Foi exatamente esse caimento que prejudicou o apoio do mastro na enora. A parte de vante da base do mastro estava solta, enquanto que o mastro estava quase totalmente apoiado pela parte de trás. Essa situação poderia se tornar perigosa, podendo até a base do mastro escapolir da enora, o que seria fatal para o mastro que cairia sobre o veleiro.

Portanto o mais correto a ser feito seria levantar o mastro, retirando-o da enora, cortar a base em ângulo e recoloca-lo na enora. Para isso o Joacy se prontificou a ajudar.

Dessa forma, resolvi comprar a passagem do Joacy para que ele viajasse no dia 19/06/2013. Ele iria me ajudar na faina de cortar a base do mastro e na regulagem.

Na manhã do dia 20/06/2013 fizemos os preparativos finais para o serviço. Compramos discos de corte, discos de lixa, parafusos, etc. Também finalizamos a instalação do suporte do motor de popa e melhoramos a fixação do u-boat do burro da retranca, o qual cedeu um pouco por falta de uma contra-chapa em um dos parafusos. Para facilitar ambos os serviços instalamos duas tampas de inspeção, uma de cada lado do convés.

As 14:30h do mesmo dia chegou o caminhão muck que seria o responsável por levantar o mastro. Esse tipo de equipamento conta com uma lança de até 18 metros e era o ideal para esse tipo de serviço.

A faina consistia em subir no mastro para amarrar a cinta do muck, soltar todos os esticadores, levantar o mastro uns 30 a 40 cm, o suficiente para trabalharmos no corte da base sem a necessidade de desligar a fiação elétrica do mastro, cortar em ângulo o pé do mastro, descer o mastro até a enora, reapertar todos os esticadores, subir no mastro para liberar a cinta e o caminhão, recolocar a retranca, averiguar todos o cabeamento (adriças, amantilho, rizos e trocar cabos do lazy jack) e recolocar o burro da retranca.

Cerca de uma hora e meia após a chegada do muck o serviço de corte já havia sido feito e já tínhamos liberado o caminhão. Agora restava terminar o serviço o que levou o resto da tarde e inicio da noite.

No dia seguinte, dia 21/06/2013, deixei o Joacy no veleiro para dar uma geral no estaiamento (regular o mastro, enquanto eu ia trabalhar), bem como para cortar o brandal de bombordo, que havia ficado grande e mal podíamos esticá-lo. A tarde foi reservada para terminar os últimos detalhes e para fazermos um churrasco, comemorando o sucesso da nossa empreitada, regada a bastante cerveja. No dia seguinte Joacy retornaria para São Luis do Maranhão.

Estávamos, portanto, há exatas duas semanas da data prevista para partida rumo a Ascencion Island.

Agora faltavam poucos preparativos, a serem finalizados na semana seguinte. Eu havia programado descer o veleiro após a festa de São João da FAVM, que ocorreria na sexta-feira, dia 28/06/2013, ou seja, o veleiro desceria para a água no dia 29 ou 30/06/2013 (sábado ou domingo).

No dia 25/06/2013, à tarde, resolvi começar a pintar as obras vivas (a parte da fibra que fica em contato com a água), porém, só consegui pintar cerca de ¼ do fundo e meu braço começou a doer. Novamente eu estava com inflamação no tendão do braço esquerdo em virtude dos esforços dos últimos dias. Resultado: tive que contratar o Edílson da FAVM para terminar o que eu havia começado. Após eu desistir de pintar o fundo, o Franklin apareceu na Federação e fomos ao supermercado para comprar todos os mantimentos não perecíveis, aproveitando que o veleiro ainda estava em seco para facilitar o embarque e a guarda dos alimentos. Nessa primeira compra gastamos R$ 500,00. As demais compras faríamos um dia antes da saída ou no próprio dia da viagem.

Enquanto eu guardava os alimentos a noite ia chegando. Num certo momento eu fixei o olho no armário que fica acima do microondas e vi pontinhos pretos se movendo. Imediatamente fui verificar e vi que se tratavam de gorgulhos. Retirei tudo do armário e vi que dois pacotes de macarrão (que estavam guardados no armário há uns dois meses) estavam repletos de gorgulho e eles também haviam atacado o arroz que eu havia comprado há uns quinze dias atrás. Ou seja, tive um trabalho danado para limpar tudo e exterminar os gorgulhos, antes que passassem para os novos alimentos que havíamos acabado de adquirir.

No decorrer da semana finalizamos os preparativos. No sábado, dia 29/06/2013, lavamos o veleiro e fizemos uma arrumação geral. Agora estava tudo praticamente pronto para a descida do veleiro para a água, o que ocorreu na manhã do domingo, dia 30/06/2013, por volta das 09:00h.

Quando o Anakena boiou e se desprendeu da carreta, saímos imediatamente para mar aberto para fazer testes com a mastreação, ver como estava a regulagem etc.

O vento estava soprando de leste, direção que não é a predominante nesta época do ano, apesar de nos sites de tempo aparecer a informação de que o vento seria SE. Portanto, fizemos rumo para o sul por cerca de uma hora, com ventos em torno de 12 nós. No retorno para a poita o vento foi decrescendo de intensidade até se tornar calmaria. Como já estávamos próximos do porto baixamos a vela principal (vela mestra), enrolamos a vela de proa (genoa) e ligamos os dois motores do Anakena. O veleiro agora estava pronto para a nossa travessia.

Na quarta-feira, dia 03/07/2013, o dia amanheceu com chuva torrencial. No dia anterior vi nos sites de meteorologia que um “distúrbio ondulatório de leste” estava criando um sistema com grande área de instabilidade sobre o litoral do nordeste e que havia previsão de muita chuva para a quarta-feira.

Realmente, o vento predominou leste, chegando a nordeste no pico da chuva. A previsão para os próximos dias seria de tempo mais estável com a diminuição gradual das chuvas. Na quinta-feira, dia 04/07/2013, Maceió amanheceu com céu parcialmente nublado e o sol deu as caras, o vento era sudeste com intensidade de 15 nós e pico de 20 nós. No site do Centro de Previsões de Tempo e Estudos Climáticos - CPTEC havia a informação de que amplas pistas de ventos de sudeste ocorreriam entre o litoral da BA e PE, com intensidade de até 12 m/s. Nada mal para iniciarmos nossa viagem rumo a Ascension.

Ainda na mesma, o rádio SSB que havia ido para o conserto foi reinstalado no Anakena. Após fazer alguns testes o técnico descobriu que a Antena (Atas 120) também estava com problema. A antena foi retirada e levada para tentativa de conserto. Caso não consigamos consertá-la iremos sem esse meio de comunicação, mais ainda restava o telefone Inmarsat Pro que eu havia comprado e contávamos com 300 minutos pré-pagos. Para falar a verdade, o rádio SSB Yaesu FT 857-D, que eu já tinha há alguns anos, nunca havia sido utilizado. Eu mesmo não sabia como usa-lo. Imprimi o manual do rádio para dar uma lida e esperava que o Mario Engles desse uma aula rápida para podermos nos comunicar com ele.

 

A partida – 1ª Expedição Maceió – Ascension Island.

Dia 1 (05/07/2013 – sexta-feira).

Como eu havia planejado, fui trabalhar pela manhã e sai do trabalho por volta das 13h30min. Fui direto na fábrica de gelo do Michel Campion que fica próxima a FAVM e é de altíssima confiança. Lá fomos informados que o Michel iria patrocinar nosso gelo. Ao todo pegamos 4 sacos de 30 Kg de gelo em escamas.

Segui para a FAVM e lá só estava o Franklin. Mário Leão ligou e avisou que chegaria logo. Wagner ligou e falou que a ponte que liga Maceió a ilha de Santa Rita estava bloqueada por um protesto e ele estava parado na rodovia esperando a liberação da via.

Quando Mário Leão chegou iniciamos o embarque dos doze garrafões de água mineral, do gelo e das nossas bolsas.

Despedimos-nos dos amigos e parentes que foram ver nosso embarque na FAVM e pegamos um pequeno bote, chamado de caíque pelos pescadores locais, para levar parte da tripulação e da carga até o Anakena. Eu o Franklin fomos no inflável do Anakena.

Saímos às 17 horas e 45 minutos, com vento no sentido ESE

Na saída eu cheguei os horímetros do motores e o de bombordo estava marcando 350 horas e o de boreste 336 horas.

Andamos praticamente a noite toda nos motores para distanciar bem da costa e ver qual vento realmente estava predominando. Isso também nos levaria para mais longe da influência da circulação direta, que de dia sopra brisa do mar para terra e de noite da terra para o mar.

 

Dia 2 (06/07/2013 - sábado)

Pela manhã, fui acordado por Wagner e Franklin e fomos abrir a buja.

Logo em seguida começaram a aparecer uma infinidade de pirajás, com ventos que chegaram a 32 nós na rajada.

Às 08h00min avistamos um navio que passou pela nossa proa.

Nosso primeiro café da manhã foi pão com queijo e ovo.

Às 11h50min observamos a passagem de outro navio.

O vento predominante era SE dificultando em muito o nosso rumo à Ascension.

Nosso almoço foi macarronada com carne moída.

Às 18h00m peguei nossa posição no GPS, era a seguinte: W 34º 09.238’ e S 09º 06.033’. Estávamos a 1173 milhas náuticas de Ascension.

Minha intenção era rumar para NE/ENE, no limite da orça, até a altura do Recife, depois tentar um bordo positivo para voltar à latitude de Maceió, esperando que o vento melhorasse de direção.

Os turnos iniciavam as 22h00m com Franklin no comando até meia noite, seguido por mim até as 02h00m, Wagner das 02h00m até as 04h00m e Mário Leão das 04h00min até 06h00min.

 

Dia 3 (07/07/2013 - domingo)

Por volta das 08h00m ouvi a tripulação ligar os motores. Fui ver o que havia acontecido. O veleiro havia entrado no vento e parado.

Como estávamos andando no limite da orça era praticamente impossível que isso não ocorresse.

Aproveitei para ir na proa averiguar tudo e percebi que a adriça da vela mestra estava caída na água. Tentei retira-la da água e ela não veio.

Informei a tripulação que estávamos com a adriça enrolada no hélice de bombordo e que precisávamos resolver aquela situação. Enrolei a buja para diminuir a velocidade. Wagner se dispôs a entrar na água e desenrolar o cabo. Coloquei um cinto de segurança nele para que ele não se afastasse do veleiro.

Nossa situação naquele momento era crítica. Por um lado precisávamos desenrolar o cabo que estava no hélice pois caso contrário além de não podermos utilizar o motor de bombordo também não podíamos descer a vela grande. Para descer a grande, em caso de emergência, seria necessário cortar a adriça, o que eu não queria fazer de jeito nenhum.

O jeito foi eu ir para o comando, ligar o motor de boreste, colocar o veleiro numa situação de vento de proa, para que a vela mestra não trabalhasse, e tentar manter essa posição com o mínimo de movimento a vante.

Não foi fácil. Às vezes Wagner era rebocado. Às vezes ele batia a cabeça contra o fundo do casco. Confesso que fiquei receoso de que ele furasse o casco! Brincadeiras a parte, a faina não foi fácil.

Depois de uns 15 a 20 minutos ele finalmente conseguiu desenroscar o cabo e podíamos seguir viagem. Menos um problema para ser resolvido.

O vento continuava ESE e não conseguimos rumar 110º, somente na faixa dos 90º.

Às 12h30min resolvemos ligar os motores e rumar sul. Estávamos no través do Recife.

Aproveitamos para “ligar a churrasqueira”, quer dizer colocar carvão e acender o fogo. Nosso almoço foi na base de lingüiça, contra-file e bisteca de porco.

 

Dia 4 (08/07/2013 – segunda-feira)

Às 07h00min Mário me acordou falando que o rizo da grande havia soltado. Na verdade foi o u-boat da roldana que não agüentou e rasgou, sim rasgou. Resolvi o problema colocando um peça mais reforçada.

Logo após, Mário me chamou a atenção para a fixação do cabo do rizo na retranca que estava soltando. Precisei fixa-lo em um olhal no final da retranca.

Por volta das 12h30min desligamos os motores. Estávamos no través da praia do Saco, ao sul de Maceió.

Novamente nosso almoço foi na base do churrasco, afinal havia carne a vontade no nosso freezer.

Analisei o vento e vi que o vento estava SE, favorável a rumarmos a Ascension.

As 18h00min a nossa posição geográfica era: S 09º 36.322’ e W 31º 51.080’.

 

Dia 5 (09/07/2013 – terça-feira)

Por volta da meia noite Franklin me chamou para assumir o turno das 00h00min às 02h00min.

Nessa hora o vento estava mais forte e resolvi recolher a genoa e desenrolar a buja.

Assim que a buja abriu e encheu ouvi um barulho e vi que a buja havia caído parte sobre o convés e parte na água.

Passei alguns segundos sem acreditar no que via. Chamei Franklin e pedi que ele acordasse a tripulação para ajudar a retirar a buja do mar.

Passamos alguns minutos na faina de retirar a buja de dentro da água. Nesse trabalho acabamos por quebrar uma seção do perfil de alumínio do enrolador da buja.

Achei por bem conversar com a tripulação e dar meia volta, retornando para Maceió.

Ligamos os dois motores para ajudar a mestra a impulsionar o Anakena. Os motores estavam com rotação em torno de 1900 rpm.

Nossa posição era S 9º 27.740’ e W 31º 23.250’. Estávamos a cerca de 260 milhas náuticas de Maceió e cerca de 1000 milhas náuticas de Ascension.

Pela manhã Wagner me chamou a disse que o pino que segura o cabo de aço do enrolador de genoa também estava prestes a soltar.

Caso tivéssemos aberto a genoa poderíamos ter perdido o mastro, pois agora somente o stai da genoa e a adriça do balão estavam segurando o mastro na proa do Anakena.

As 18h00min passamos por um navio que estava em rota de colisão conosco, tecnicamente chamado de “roda roda”.

Chamei no VHF e o navio respondeu em inglês. Informei que estávamos em rota de colisão. Eles perguntaram nosso rumo e velocidade e depois mudaram o seu curso. Passaram próximos a nossa proa.

 

Dia 6 (10/07/2013 – quarta-feira)

Continuávamos a seguir para Maceió. A essa altura a nossa previsão de chegada era aproximadamente meia noite.

Franklin pediu que aumentássemos a rotação dos motores para que chegássemos mais cedo, para podermos desembarcar e ir para casa.

Eu falei para ele que manteria os motores em modo econômico, com baixa rotação, que deveríamos chegar por volta da meia noite, e que eu não tinha pressa em desembarcar a noite. Eu preferia dormir a bordo e na manhã da quinta-feira arrumar o veleiro com calma e somente depois disso desembarcar.

Minha previsão se mostrou britânica. Chegamos na poita do Anakena precisamente a meia noite.

O horímetro dos motores estava marcando 433 horas o de bombordo e 412 horas o de boreste. Ao todo andamos 159 horas (os dois motores) e gastamos cerca de 240 litros de óleo diesel. Calculando nosso consumo chegamos a incríveis 1,5 litros por hora, cada motor, ou seja, 3 litros por hora usando os dois motores ao mesmo tempo. Eu havia calculado um consumo de 4 litros por hora para os dois motores, com RPM da faixa de 2200 a 2300. Os motores Yanmar realmente se mostraram muito econômicos e confiáveis, afinal o motor de bombordo trabalhou 83 horas e o de boreste 76 horas, somente nesta viagem.

center fwB||||||news|c05 normalcase uppercase fwR|c05|login news c05 normalcase uppercase|c05 tsN normalcase uppercase|c05|content-inner||