Arquipélago de São Pedro e São Paulo

Descoberto acidentalmente, em 20 de abril de 1511, quando uma frota portuguesa composta por seis caravelas com destino à Índia aí registrou seu primeiro naufrágio, o Arquipélago de São Pedro e São Paulo é um conjunto de pequenas ilhas rochosas localizado a cerca de mil quilômetros da cidade de Natal.

Segundo consta na publicação Roteiro Costa Leste, “o Arquipélago de São Pedro e São Paulo é constituído por um conjunto de ilhotas escarpadas que se estendem na direção N–S por cerca de 400m, com elevação máxima de 23m e que afloram abruptamente, em região de profundidades superiores a 3.000m.

Está localizado na posição 00º 55,2’N – 029º 20,6’W, 342 M a NNE do arquipélago de Fernando de Noronha.

É normalmente visível de distâncias entre 8M e 9M, embora as sondagens não dêem indicação de sua existência.

Dá bom eco no radar, de distâncias entre 10M e 11M, com fortes ecos de SW a WSW; contudo, com aguaceiro ou mar agitado os ecos tornam-se espúrios, devendo haver cuidado nestas ocasiões.

O grupo principal é formado pelas ilhotas Belmonte, São Paulo, São Pedro e Barão de Teffé, formando uma pequena baía, com a entrada voltada para NNW. A ilhota Belmonte é a maior do arquipélago, e nela, no ponto mais elevado, encontra-se o farol Arquipélago de São Pedro e São Paulo (1106), uma torre cilíndrica de fibra de vidro, branca com 2 faixas horizontais encarnadas, tendo 6m de altura e luz de lampejo branco na altitude de 29m com alcance de 15M.

Também na ilhota Belmonte está localizada a Estação Científica do Arquipélago de São Pedro e São Paulo (ECASPSP), permanentemente guarnecida por quatro pesquisadores brasileiros. A ECASPSP guarnece 24 horas o canal 1.621, operando em HF, com freqüência de recepção de 17.302,0 kHz e de transmissão de 16.420,0 kHz. É possível ainda efetuar contato com o arquipélago através da estação costeira operada ininterruptamente pela Embratel, pelo telefone 0800-7012141.

Ao sul do grupo principal estão a laje da Tartaruga, a ilhota Sirius e as rochas Gago Coutinho e Sacadura Cabral; ao norte ficam as rochas Atobá e Graça Aranha; e a leste encontra-se a rocha das Viuvinhas.

A vegetação existente no arquipélago é do tipo rasteira e só existe na ilhota Belmonte. As superfícies das ilhotas e rochas apresentam-se esbranquiçadas por guano, devido ao grande número de aves que fazem seus ninhos alí. Por este motivo, o desembarque por meio de helicóptero é perigoso, com risco para a aeronave.

A água potável existente no arquipélago destina-se somente ao consumo da guarnição da ECASPSP”.

Consta ainda no roteiro especial atenção aos perigos, que são descritos na carta 11:

“A navegação nas proximidades do arquipélago deve ser feita com cautela, tendo o cuidado de levar-se em conta a corrente, predominantemente na direção W.

Há uma pedra conhecida na profundidade de 9,1m, marcação 275º e distância de 133m do farol.

Em 1942 foi comunicado que o banco onde fica o arquipélago se estende por cerca de 1,5M para W e que há uma profundidade de 37m, 1 M a W. Junto à margem oeste dos rochedos há profundidades de 65m.

Em 1974 o NM Ana Cristina afundou depois de bater em um objeto desconhecido, provavelmente uma pedra, cerca de 10M a SW dos rochedos (00º 46’N – 029º 29’W).

Sendo a região sujeita a abalos sísmicos, eventualmente, as ondas de choque, conseqüência de tais abalos, podem ser percebidas pelos navegantes, induzindo-os a incômodas sensações de toque do casco no fundo ou em pedras. Recomenda-se pois um cuidadoso acompanhamento da posição e do fundo nessa região.

A aproximação no período noturno deve ser evitada, pois é comum a presença de pequenas embarcações fundeadas, nas proximidades do arquipélago, apresentando iluminação deficiente”.

Também consta no roteiro uma preciosa informação para nós, essa informação diz respeito a existência de uma bóia de amarração, conforme descrita a seguir:

“Existe uma bóia de amarração localizada a 180m a W do farol da ilhota Belmonte, na posição 00º 55,0’N – 029º 20,8’W. Esta bóia destina-se, prioritariamente, aos navios da Marinha do Brasil em missão de abastecimento e manutenção da ECASPSP.

O fundeio nas proximidades do arquipélago é muito difícil, devido às variações bruscas de profundidades, sendo necessário um perfeito conhecimento da área. O fundo é de pedra, o que aumenta em muito os riscos de se perder o aparelho de fundeio (ferro).

O fundeio dentro da enseada é recomendável somente para botes infláveis e lanchas, sendo necessário um bom conhecimento das pedras existentes na enseada. O uso de âncora (ferro) de patas não é aconselhável. Dentro da enseada existe uma bóia de amarração para estes tipos de embarcação.

É recomendável que o desembarque de material ou de pessoal na ilhota Belmonte seja realizado através de bote inflável, utilizando-se o cais tipo “trampolim” construído no lado nordeste da ilhota”.

Com relação aos ventos e correntes, o Roteiro Costa Leste trás informações acerca do que devemos enfrentar em nossa travessia, falando o seguinte:

“De janeiro a junho predominam os ventos Norte e Nordeste e de julho a dezembro os Sueste e Sul, podendo atingir a força 4 na escala Beaufort.

A maré tem característica semidiurna, com o nível médio do mar 1,1m acima do nível de redução da carta.

A parte norte da corrente Sul-Equatorial passa pelo arquipélago. A maioria das correntes observadas tem a direção entre NW e SW, com velocidade superior a 1 nó e podendo passar de 2 nós, principalmente de maio a outubro.

Correntes com outras direções podem ocorrer, especialmente de fevereiro a julho, e as na direção E podem chegar a 1 nó ou mais, sobretudo de maio a julho.

Em maio de 1962 o NHi Sírius observou corrente na direção NNE, com velocidade de 2 nós.

Em agosto de 1873 o HMS Challenger observou uma corrente de 3 nós passando pelo arquipélago, agitando o mar e formando redemoinhos a sotavento. Redemoinho semelhante foi observado pelo HMS Owen, em julho de 1957”.

Para proteger o precioso ecosistema existente no Arquipélago de São Pedro e São Paulo, foi criada uma a área em torno do arquipélago de São Pedro e São Paulo delimitada pelos paralelos de 00º 53’N e 00º 58’N e pelos meridianos de 029º 16’W e 029º 24’W, que constitui “Área de Proteção Ambiental”, criada pelo Decreto nº 92.755, de 5 de junho de 1986, com o objetivo de proteger e conservar a qualidade ambiental e as condições de vida da fauna e da flora da região.

Nesta área são proibidos o fundeio, o desembarque, o mergulho, a pesca e qualquer alteração no meio ambiente.

A quantidade de aves que aninham e se refugiam no arquipélago é muito grande, principalmente os Atobás. Também há muito caranguejo.

A área é bastante piscosa e infestada de tubarões, constituindo zona de grande concentração de espécies pesqueiras. Lá também aparecem os tubarões baleia e as enormes raias mantas.

Agora que conhecíamos as peculiaridades do Arquipélago de São Pedro e São Paulo, inclusive com atenção ao aterramento e ao fundeio naqueles inóspitos rochedos, podemos seguir com o Anakena sem corrermos riscos.

O conhecimento prévio das condições locais como por exemplo o fundeio, os ventos predominantes, as correntes marinhas e os perigos ocultos, é muito importante para a segurança da navegação, pois as baixas altitudes e pequenas dimensões tornaram o arquipélago um ponto crítico para a navegação.

Antes mesmo de chegarmos ao Arquipélago de São Pedro e São Paulo já havíamos mantido contato com o Victor na estação científica e ele informou que havia um poita disponível para o Anakena e quando estivéssemos próximos um bote iria nos dar apoio para indicar a poita e fazer o nosso desembarque.

Após o Anakena estar firmemente amarrado em sua nova poita, desembarcamos para conhecer nossos novos amigos da estação científica do Arquipélago de São Pedro e São Paulo. Lá conhecemos o Victor, o Rômulo, Patrícia e Fernanda.

Após conhecermos as instalações eu propus que fizéssemos um churrasco na estação. Voltei ao Anakena para pegar fraldinha, picanha, lingüiça, carvão e cinco caixas de cerveja. O churrasco começou no final da tarde e rolou a noite toda. A uma certa altura, o Victor nos convidou para dormir nos rochedos. Nos aceitamos, para isso tivemos que voltar no Anakena para pegar dois colchões. A noite foi bastante animada, com Victor no violão. Eu dormi na varanda da estação científica, em uma rede, local que mais fez frio, mas para mim estava confortável. Fábio, que dormiu dentro da estação, abrigado do vento, quase não dormiu de tanto frio (falta de capa de gordura).

Pela manhã, dia 01/10/2013, fui com Wagner no Anakena montar os equipamentos de mergulho. Eu, Wagner e Mário Leão iríamos mergulhar com scuba. O mergulho foi fascinante. Mergulhar no cume de um abismo de 4000 metros é uma experiência surreal.

Durante o mergulho vimos tartarugas, moréias de chifre (essas moréias eram tantas que tínhamos que olhar onde iríamos segurar na pedra para não sermos surpreendidos), barracudas, peixes de várias espécies etc. Eu e Mário descemos até uns 30 metros de profundidade, embora o mergulho mais profundo fosse tentador. Wagner mergulhou até 47 metros de profundidade.

Após o mergulhos fizemos um pouco de apneia na piscina abrigada que fica entre as ilhas. Também estavam fazendo apneia o Fábio e a Fernanda.

O Victor nos convidou para um almoço na estação. Ele fez uma deliciosa feijoada.

Após o almoço nos despedimos dos nossos novos amigos, apesar dos protestos de Victor que queria que dormíssemos mais uma noite no arquipélago.

Às 14h15min soltamos a poita e começamos nossa travessia de retorno, desta vez nosso destino era o Atol das Rocas, distante cerca de 392 NM.

A noite o turno se iniciou por Tereza, seguido por Fábio, Mário, eu, Wagner e Tereza ao amanhecer.

No dia 02/10/2013, às 08h15min, tínhamos percorrido 122,3 NM, faltando cerca de 269,2 NM para o Atol. Nossa posição era S 0º38.220’ e W 030º40.564’. Nossa velocidade média era de 6,9 nós, sendo a máxima de 10 nós. Nosso BRG era 243º magnéticos. Os ventos eram constantes na casa dos 17 nós de intensidade.

Durante a madrugada havíamos passado novamente pela linha do Equador.

Às 14h00min avistamos um navio conteineiro na marcação 300º magnéticos. O Anakena estava na posição S 1º04.199’ e W 31º07.970. Distância percorrida de 160,4 NM, restando 231,4 NM até o Atol. A nossa velocidade média desceu para 6,8 nós e a máxima subiu para 10,1 nós.

Às 14h15min (24 horas após a partida) havíamos percorrido cerca de 162 NM, faltando 229,8 NM para o Atol. Nossa posição era S 1º05.349’ e W 31º09.263’. Nosso BRG era de 242º magnéticos. A velocidade média se mantinha em 6,8 nós.

Às 15h35min avistamos ao longe outro navio, desta vez um petroleiro.

A noite nosso turno se iniciou por Wagner, seguido por mim, Tereza, Fábio e Mário.

Durante a madrugada do dia 03/10/2013, após uma rajada mais forte de vento, resolvi enrolar a genoa e abrir a buja. Até então, durante toda a viagem estávamos com a grande toda em cima e com a genoa, sem nenhuma necessidade de diminuir o velame. Essa foi a primeira vez que o vento passou de 22 nós.

Logo após trocarmos a vela de proa, o vento voltou a ficar entre 14 a 20 nós. Por precaução, e para não ser acordado durante o turno dos outros tripulantes para diminuir vela, resolvi deixar a buja durante toda a madrugada.

Nosso café da manhã foram duas pizzas, que estavam no freezer congeladas desde Maceió.

Pela manhã liguei para Eliza, a esposa do Nico da Atlantis Divers, via telefone satelital Inmarsat, para informá-la de nossa posição e estimativa de chegada no Atol, conforme tinha combinado com o Nico. Lá no Atol estaria o Nico com o Voyager. Ainda pela manhã voltamos a usar a nossa genoa, maior vela de proa.

Nosso almoço foi uma macarronada com as duas lagostas, que havíamos feito o escambo na frente do Recife, preparadas com molho 3 queijos.

Às 13h00min tive que trocar as pilhas do Spot que descarregaram.

Às 14h15min havíamos percorrido 323 NM desde São Pedro e São Paulo, restando 68,5 NM para o Atol das Rocas. Nossa velocidade média era de 6,8 nós, a máxima tinha sido de 13 nós. Nossa posição atual era S 3º 01.285’ e W 033º 02.222’. Nosso BRG era de 244º. O vento se mantinha na faixa de 13 a 17 nós.

Estávamos no dia 03/10/2013, uma quinta-feira. Após o almoço peguei a carta náutica do Atol das Rocas para dar uma estudada nos detalhes de aproximação. Tomando por base nossa velocidade média, deveríamos chegar no Atol por volta das 23h00min.

A noite desligamos o freezer para economizar as baterias. Aparentemente, as minhas 3 baterias de 220 ah Moura Boat não mais estavam segurando carga. Essas baterias tinham cerca de 3 anos de vida e já se pagaram. Pela manhã, quando o sol nascesse, ligaríamos o inversor novamente. Essa manobra se mostrou eficaz durante o resto da viagem.

Estávamos próximos do nosso próximo destino, o Atol das Rocas.

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